OUTUBRO É MÊS DE MÚSICA E DANÇA NO CINECLUBE DE SANTARÉM

A relação de proximidade entre a música e o cinema não é nova: desde os primeiros filmes mudos  da história da 7ª arte que a música tem um papel fundamental no cinema.
Uma boa banda sonora pode tornar bom um filme medíocre, assim como uma escolha errada em termos musicais pode arruinar um filme excepcional.
Mas não é isso que pretendemos ilustrar com a nossa programação de Outubro. Esse tópico seria ponto de partida para toda uma história do cinema, coisa que, humildemente, assumimos não ter capacidade de levar avante.

O que propomos então?…
Tendo como ponto de partida a ligação entre música e cinema, resolvemos ajustar a nossa programação do mês à forma como o cinema fala da música, como a filma, como se relaciona com ela.
Não apenas de um ponto de vista documental, mas procurando filmes em que a música seja ela própria uma personagem principal do argumento.
Propomos uma mostra eclética e diversa entre si. Com muita música…

Começamos dia 7 de Outubro com um espectáculo de exuberância e sensualidade no filme “Tournée – Em Digressão”, uma viagem ao vaudeville e burlesco pela mão de Mathieu Amalric.

A génese de “Tournée” está num cruzamento de inspirações quase simultâneas: os textos da escritora francesa da Belle Époque (e cortesã profissional)  Colette (autora de “Gigi” e “Chéri”); uma reportagem sobre o “new burlesque”, reinvenção contemporânea, feminina e feminista, dos espectáculos de vaudeville e music-hall; e o suicídio do produtor de cinema Humbert Balsan (recentemente ficcionado no filme de Mia Hansen-Løve: “O Pai das Minhas Filhas”).
O resultado está em trânsito entre o documentário e a ficção, é selvagem, é melancólico. Amalric faz de “Tournée” um filme em “tournée”. Desde logo porque os shows de “burlesque” foram filmados com público a assistir, em “tour” pela costa francesa, com coreografia das próprias artistas.
É um movimento sensualíssimo que se evidencia logo nos planos de abertura, nas entradas de corpos, nas intromissões e esperas, no retrato de grupo que se forma, que se atrai.
O que quer que signifique o grito rock’n’roll final, ele sinaliza, antes de tudo, o “tour de force” de um cineasta.

Dia 13 de Outubro mudamos o registo, e vamos à procura da música popular portuguesa no filme “Sinfonia Imaterial”, de Tiago Pereira

“Sinfonia Imaterial” pretende mostrar que, aqui e agora, existe um país com uma vivíssima tradição musical feita de “milhares de influências”, o que nos permite pressentir algo da “Galiza, de África, do Brasil, dos países nórdicos ou da Índia, sem nunca sair de Portugal”. Tal como o nome indica, não é exactamente um documentário.
“Era importante mostrar que todos aqueles projectos musicais misturados podiam ter uma força sinfónica sem maestro, ou com um maestro virtual, que era eu”, explica o realizador. Nessa ausência de qualquer outro discurso para além do cantado, “Sinfonia Imaterial” distingue-se de trabalhos anteriores de Tiago Pereira, como “B Fachada – Tradição Oral Contemporânea” ou “Significado”. Aqui, leva esse anseio às últimas consequências, criando um mosaico musical em que os vozes e instrumentos se cruzam para criar combinações surpreendentes. O olhar é, portanto, de músico (está-lhe nos genes, ou não fosse ele filho de Júlio Pereira). “Há muito tempo que queria percorrer o país todo de repente, para manter a cabeça fresca e para conseguir mais facilmente estabelecer relações musicais entre todo o material.” A preocupação principal era mostrar uma realidade em constante mutação. “O filme tem jovens e velhos, para mostrar que a tradição está viva, que quando acabarem estes responsos e estes instrumentos outros tomarão o seu lugar e serão tão ricos e tão estranhos como os de agora”.
A obra cinematográfica e multidisciplinar de Tiago Pereira – principalmente nos mais recentes “Mandragora Officinarum”, “Arritmia” e “Significado – A Música Portuguesa se Gostasse Dela Própria” – tem contribuído, e muito, para um novo conhecimento e reconhecimento das raízes das inúmeras músicas tradicionais portuguesas. Mas o seu novo filme, “Sinfonia Imaterial”, vai ainda mais longe. Sem nunca abdicar da sua visão – não por acaso, põe muitas vezes a dialogar vozes, instrumentos e ritmos de diferentes géneros e locais -, Tiago Pereira tem aqui uma nova abordagem documental, sem entrevistas, sem narração off, sem nada a não ser a música pura e dura. Mas que música! Viajando por todo o país e com passagem pelos Açores e pela Madeira, “Sinfonia Imaterial” nega que já não haja música tradicional por descobrir e que a “fonte já tenha secado”. Está por isso cheio de surpresas: aqui só está o “povo que canta” (e toca). São dezenas de músicos, de cantores e cantoras desconhecidos (a não ser dois ou três que os fanáticos da folk e da tradição conhecem) a trazer aos nossos ouvidos, muitas vezes, sons que nunca tínhamos ouvido, pelo menos desta maneira – o maravilhoso cante ao baldão de duas senhoras alentejanas; as estranhas pontes lançadas por vozes e instrumentos das ilhas à chamada música celta ou à música árabe ou a um fado ao despique que já não é fado; o antigo e arrepiante (en)canto de embalar de uma senhora da Beira Baixa – “Dorme dorme, meu menino, que a mãezinha logo vem…” – e instrumentos que já quase ninguém usa, como o bexigofone, as zamburras ou o rajão madeirense.

A partir de 22 de Outubro rendemo-nos a Wim Wenders.

Nome grande do cinema contemporâneo, o seu trabalho está indissociável da música, seja pela banda-sonora cuidada e escolhida a preceito em todos os seus filmes, seja pelo próprio protagonismo que a música assume em vários deles.

“My life was saved by Rock’n Roll.
Because it was this kind of music that, for the very first time in my life, gave me a feeling of identity, the feeling that I had a right to enjoy, to imagine, and to do something.
Had it not been for Rock’n Roll, I might be a lawyer now.”
(Wim Wenders)

“Viagem a Lisboa”  inaugura a 22 de Outubro o ciclo de 3 filmes com a assinatura do realizador alemão.

“Lisbon Story” (‘Viagem a Lisboa’ na versão portuguesa) está longe de ser uma obra maior de Wim Wenders, um cineasta de filmes marcantes e antológicos como “Asas do Desejo” e “Paris, Texas”, mas tem um certo encantamento, um olhar poético que, sem dúvida, nasce da junção das imagens feitas por Wenders da capital portuguesa com a perfeita tradução musical daquela cidade feita pelos Madredeus. Lisboa é mostrada no filme como uma cidade mítica, na qual passado e presente convivem em harmonia, como se Lisboa fosse o último refúgio de um certo olhar antigo que a Europa perdeu com a modernidade.
A história tem linhas simples: Winter é um sonoplasta que, a pedido de um amigo realizador de cinema, vai a Lisboa para sonorizar um filme que está a ser realizado sobre a cidade. Chegando a Lisboa, o amigo de Winter está desaparecido e este encontra apenas alguns rolos do filme e o grupo musical português que está a preparar a banda sonora do filme. Na sua busca pelo amigo perdido e por sons que possam ser usados para representar a vida lisboeta no filme em que está a trabalhar, Winter descobre um Portugal mágico, envolve-se com diversos personagens daquela cidade, os quais, de alguma formam, haviam travado contato com o cineasta, e redescobre a magia do cinema e a própria essência da arte.
‘’Já tinha filmado duas vezes em Lisboa e achava-a uma cidade fascinante. Mas sentia-me culpado por nunca ter feito mais do que arranhar a superfície de um lugar que amava. Quando o produtor Paulo Branco me pediu para fazer um filme sobre a cidade, encomendado pela própria Lisboa (capital europeia da cultura ´94), vi que tinha a oportunidade de compensar as oportunidades perdidas. Agora, penso que este é o mais divertido filme que fiz. De alguma forma “Lisbon Story” é também a minha contribuição para as comemorações do centenário do cinema.’’ (Wim Wenders)

A 26 de Outubro, continuamos num registo apaixonado e apaixonante com o filme “Pina”, a mais recente longa metragem do realizador.

Pina é um filme para Pina Bausch. Wim Wenders filma o Tanztheater Wuppertal, sobre a obra única da extraordinária coreógrafa alemã que morreu em 2009. É uma viagem sensual e deslumbrante através das coreografias dançadas no palco e em locais da cidade de Wuppertal – cidade que durante 35 anos foi a casa e o centro de criatividade de Pina Bausch.
Após a inesperada morte de Pina Bausch no Verão de 2009 (a meio da pré-produção do filme) Wim Wenders, depois de um período de luto e de reflexão, teve de repensar e começar de novo o seu filme sobre e com Pina Bausch. O resultado foi um filme para Pina Bausch. Recorrendo às coreografias que haviam sido seleccionadas por ambos – Café Muller, A Sagração da Primavera, Vollmond e Kontakthof – e usando algumas imagens e registos sonoros da sua vida, bem como gravações de bailarinos do Tanztheater Wuppertal, que na Primavera de 2010 dançaram as memórias da sua grande mentora.
“Pina” é o culminar de um projecto de duas décadas de Wim Wenders trazer para o cinema o “tanztheater” da coreógrafa alemã Pina Bausch, falecida em 2009. O realizador disse repetidamente que nunca soube como fazer justiça à arte de Bausch. O que o realizador de “Paris, Texas” faz é, apenas, gerir o espaço. Com uma modéstia extraordinária (até improvável para alguém com a sua longuíssima, e aclamada, carreira), Wenders apaga-se por trás da obra da coreógrafa, cruzando quatro criações suas filmadas na Ópera de Wuppertal com solos dos bailarinos da companhia filmados em exteriores de Wuppertal, imagens de arquivo, momentos em que os bailarinos e colaboradores recordam Bausch e os conselhos que ela lhes deu. E essa gestão do espaço é crucial para que as peças da coreógrafa ganhem vida no écrã para lá de um simples registo de uma “performance” – é isso que torna “Pina” em cinema, em grande cinema, atento a cada gesto, a cada movimento, a cada emoção de um modo que só o cinema permite, mas sem nunca trair nem nunca nos fazer esquecer que a arte de Pina Bausch não é uma arte técnica mas sim profundamente humana.
“Aprendi mais do que nunca. Aprendi a confiar nos meus olhos de modo diferente, aprendi a confiar no que as câmaras podem fazer sem palavras e aprendi que a verdadeira essência de um documentário é conseguir que aquilo que queremos transmitir possa ser mostrado da forma mais bela possível. E isso é uma abstracção que eu não tinha sido capaz de compreender antes. Creio que a natureza do trabalho de Pina exigia que eu não me impusesse à sua arte, e devo dizer que isso é um processo que não é fácil”. Sobretudo para um cineasta: “Nós, cineastas, somos convencidos por natureza – já trabalhámos com estrelas, conhecemos a linguagem corporal, sabemos o que é a presença de um actor e como tirar o melhor dele e pô-lo confortável para ele poder dar-nos essa presença… Depois vemos Pina e compreendemos que nem estamos no mesmo planeta. Não somos sequer capazes de chegar perto do que ela é capaz de ver.” (Wim Wenders)
“Pina” podia cair muito facilmente numa espécie de “greatest hits” filmados de Bausch, mas em vez disso é o melhor Wenders em quase uma década, objecto tão inclassificável como a arte da coreógrafa: um filme que não é documentário, que não é espectáculo filmado, que não é cinema narrativo, mas que é isso tudo ao mesmo tempo. E que é magnífico. (Jorge Mourinha in Cinecartaz – Público, Maio´11)
Com o filme, Wenders atinge o que se propunha e algo mais: um reinventar de possibilidades do cinema em capturar o que acontece em palco e transbordar isso para algo mais; um redescobrimento do trabalho de Pina Bausch, pela forma como lhe concede novo contexto, levando-o também a um novo público, que não teve a hipótese de o ver ao vivo; e uma renovação pessoal, já que encontra aqui o veículo perfeito para a continuação do seu cinema cerebral-sentimental. Há ainda tempo no final do filme para, depois de termos ouvido Jobim e Caetano Veloso, sermos presenteados com uma última dança de Pina ao som de um fado, que é a melhor conclusão que se poderia pedir, para guardar isto perto de nós.

“Dance, dance… otherwise we are lost” (Pina Bausch)

Terminamos o mês ao som dos ritmos cubanos com a exibição de “Buena Vista Social Club”, no dia 29 de Outubro.

Em 1996, Ry Cooder, músico norte-americano, reúne alguns dos grandes nomes da música cubana para gravar o álbum “Buena Vista Social Club”. Wim Wenders filma esta reunião ímpar de músicos excecionais; de Ibrahim Ferrer, a Ruben Gonzales, passando por Compay Segundo, Omara Portuondo ou Eliades Ochoa, só para referir alguns. Um documentário marcante que nos obriga a (re)descobrir o universo único do som cubano.
O filme retrata de maneira brilhante, criativa, a história de alguns ícones da música cubana. Na figura dos seus personagens percebemos influências ancestrais, desde África, Espanha e seus ascendentes mouros amalgamado a história de um povo que luta consigo mesmo para preservar a própria alma. E isso é evidente na música valorizada pelo genial Wim Winders. O filme resgata, para quem pouco conhece de Cuba, não apenas o ritmo caliente, mas também a maestria dos seus melhores, o ritmo das ruas de Havana e o contraste com o mundo capitalista – representado por Nova York.
Que outra oportunidade teríamos de ver um documentário de tão boa qualidade, se não fosse pelas mãos de Wim Wenders? Que outra oportunidade teríamos de conhecer um pouco mais da história de um povo se não fosse a perspicácia de Ry Cooder? Que outra oportunidade teríamos de ouvir uma das músicas mais perfeitas e melhor arranjadas do mundo se não fosse pela experiência dessa verdadeira seleção que se chama “Buena Vista Social Club”? Magistral. Para assistir e ouvir de joelhos.
“Music is a treasure hunt. You dig and dig and sometimes you find something. In Cuba, the music flows like a river.” (Ry Cooder)
Buena Vista Social Club são 118 minutos de filme-concerto. É um documento pessoal, é um filme etnográfico, é um diário de viagem, é um filme político, é uma obra de nostalgia, é uma cápsula do tempo, é uma carta de amor. É um dos melhores e mais humanos filmes de Wim Wenders.