ROMA, CIDADE ABERTA | 22/05/2010

Título original: Roma, Cittá Aperta

Realização: Roberto Rossellini

Com: Aldo Fabrizi, Anna Magnani, Marcello Pagliero, Vito Anichiarico, Nando Bruno, Harry Feist

Argumento: Sergio Amidei, Federico Fellini

Fotografia: Ubaldo Arata

Música Original: Renzo Rossellini

ITA | 1945 | P/B | 100 min | M/16

Sinopse: Entre 1943 e 1944, Roma, sob ocupação nazi, é declarada “cidade aberta”, para evitar bombardeamentos aéreos. Nas ruas, comunistas e católicos deixam as suas diferenças de lado para combater os alemães e as tropas fascistas. Filmado logo após a libertação de Itália, em locais reais e com actores amadores, Roma, Cidade Aberta tornou-se o marco inicial do neo-realismo italiano, que mostrou ao mundo que era possível fazer cinema mesmo sob as condições mais precárias. O filme é considerado um dos melhores da história do cinema pela crítica mundial.

Prémios e Nomeações:

  • Grande Prémio do Festival de Cannes (1946)
  • Nomeado para Óscar de Melhor Argumento (1947)

Local: Fórum Actor Mário Viegas

Data: 22/Maio/2010, sábado, 21h30m

Sessão destinada a formação de público, com entrada livre sujeita à lotação da sala

“(…)

Em 1943, Rossellini ingressou na Resistência, passando a viver na clandestinidade. Dois meses após a liberação da Itália, em 1945, deu início às filmagens de Roma, Cidade Aberta, obra que, incompreendida e recusada pela crítica italiana, foi, um ano depois, aclamada pela crítica francesa e se tornou um dos marcos fundamentais do neo-realismo italiano (juntamente com Ossessione, de Luchino Visconti, Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica e Paisà, do próprio Rossellini). Contudo, Roma, Cidade Aberta e Paisà (1946) extrapolaram o contexto do cinema italiano, influenciando decisivamente o moderno cinema do pós-guerra.

Moralismo, misticismo, incoerência política, traição aos pressupostos estéticos do neo-realismo: inúmeras foram as acusações imputadas, tanto por católicos quanto por comunistas, ao conjunto da obra rosselliniana. Mas se filmes como Roma Cidade Aberta, Stromboli, Alemanha Ano Zero, Viagem à Itália e Francisco, Arauto de Deus mantêm entre si evidentes diferenças no tratamento e na escolha temática, Rossellini não foi, em nenhum deles, menos fiel a si próprio. Há, em cada um desses títulos, a busca por uma representação anti-espetacular do homem em confronto com a realidade; uma realidade que, por sua vez, não quer significar nada, mas simplesmente existe. Ou seja, não importa que estejamos diante de um vulcão em erupção, como em Stromboli, ou até mesmo de um milagre, como em Francisco, Arauto de Deus: o que vem a primeiro plano é sempre o homem diante do mistério.

É por este motivo que Roma, Cidade Aberta, quase sessenta anos após sua realização, continua a ser um dos momentos mais fortes da história do cinema. O impacto estético conseguido por Rossellini, nasce, por um lado, de uma violenta absorção da realidade, e, por outro, de uma construção dramática que foge inteiramente às regras de um cinema narrativo então hegemônico.

As condições de produção que possibilitaram Rossellini filmar Roma, Cidade Aberta foram, segundo seus próprios relatos, as mais impraticáveis. Impulsionadas por cheques sem fundo, emitidos por “mecenas” improvisados em produtores (e que escondiam a própria falência), as filmagens se arrastaram por meses, tendo como “quartel general” um picadeiro desativado sob um bordel, nas proximidades de uma redação de um jornal do exército americano. Filmando numa cidade em ruínas e assumindo dívidas cada vez maiores, Rossellini trabalhou com atores em sua maior parte desconhecidos, com exceção de Anna Magnani, àquela época uma atriz de relativo sucesso no teatro. A falta de recursos incluía até mesmo película virgem. Rossellini a conseguia comprando no mercado negro, em pequenos rolos de 20, 30 ou 50 metros, o que o forçava a rodar planos curtos e a redimensionar constantemente o roteiro. A filmagem em exteriores, por outro lado, não era apenas uma saída para a inexistência dos estúdios: correspondia à natureza fílmica da obra, quase um documentário da paisagem semi-destruída do pós-guerra. Com todas estas pré-condições e obstáculos, Roma, Cidade Aberta resultou no que mais tarde se convencionou chamar de “modelo neo-realista”, muito embora, em Rossellini, o neo-realismo fosse antes uma tomada de posição moral do que um “estilo”.

Dois grandes temas atravessam Roma, Cidade Aberta: a resistência, entendida não apenas como a luta travada nos domínios da guerra, mas como o próprio sentimento de luta contra toda e qualquer opressão, e o desespero, entendido aqui como toda a forma de desistência da fé no homem, e também como a sua maior perversão: o ódio e a intolerância do nazi-fascismo. Todos os personagens que se movem neste drama representam, ou melhor, pertencem à categoria dos que resistem ou dos que se entregam ao desespero. Mas, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, não se trata de um esquema maniqueísta de entendimento histórico. Roma, Cidade Aberta é um discurso político que toma o partido dos que resistem, mas que também confere substância ao drama do desespero, e o repõe em termos humanísticos.

Não é à tôa que o roteiro impede que o espectador atribua de imediato a este ou aquele personagem o estatuto de “personagem principal”. Não há maior ou menor heroísmo entre Manfredi (Marcello Pagliero) e Don Pietro (Aldo Fabrizi). O que os une é um princípio, se quisermos, de coragem humana, que independe das convicções ideológicas (Manfredi é um militante comunista e Don Pietro um padre). Se há um “herói” em “Roma…” ele é simplesmente o próprio ato de resistência.

(…)”

Luís Alberto Rocha Melo in contracampo.com.br

Cittá Aperta de Roberto Rossellini

com Aldo Fabrizi, Anna Magnani, Marcello Pagliero, Vito Anichiarico, Nando Bruno, Harry Feist
Argumento – Sergio Amidei, Alberto Consiglio
Fotografia – Ubaldo Arata
Música Original – Renzo Rossellini
Origem – Itália 1945
Classificação -. M/16